Sexta-feira, 23 de Setembro de 2005

O ÚLTIMO MILAGRE DE FÁTIMA


A minha amiga Cipriana resolveu ir a pé a Fátima no cumprimento de uma promessa pelo facto da Virgem lhe ter curado uma unha encravada. Ainda tentei dissuadi-la, dizendo: "Não vás, olha que é uma grande caminhada, tu já não és nenhuma jovem, ainda por cima nunca foste a Fátima e não tens qualquer sentido de orientação, ainda te vais perder, tem juizo mulher!". O meu apelo não surtiu qualquer efeito, promessas são promessas era a única resposta que a Cipriana dava às minhas tentativas para a fazer desistir daquela louca caminhada.


Lá partiu acompanhada pela filha, cujo namorado andava com uns problemas de ejaculação precoce e, embora a moça não fosse muito crente, resolveu fazer a peregrinação numa de se não fizer bem, mal também não faz. Entretanto a mãe da Cipriana que já há muito tempo tinha uma promessa por cumprir que se reportava à última peste suína que atacara a região, achou que era a altura ideal para cumprir a promessa não fosse ela morrer sem pagar o tributo à Virgem por ter poupado da peste os seus porquinhos enquanto dizimara tantos outros.


Iniciaram a caminhada, por serras e atalhos, a Cipriana no comando, muito segura de si e confiante nas explicações sobre o itinerário que lhe dera um vizinho habituado àquelas andanças. A mãe e a filha seguiam-na cegamente e lá foram, parando de vez em quando para descansar, beber água e petiscar qualquer coisa. O dia estava fresco, a serra cheirava a rosmaninho, respirava-se ar puro, pode dizer-se que a caminhada até estava a ser agradável. A Cipriana lá ia esticando o dedo sempre que era preciso mudar de rumo até que deixaram os atalhos e a serra, retomando a estrada que, no seu entender, ia direitinha ao Santuário.


Efectivamente, passado um quilómetro, lá estava uma praça apinhada de gente, uma multidão ululante que gritava frente a um edifício protegido por um cordão policial: "Eu via-a, eu via-a. Eu até lhe toquei. Ela até me beijou. Ela voltou, ela voltou!!!!!!!". As mulheres seguravam retratos enormes de encontro ao peito e a mãe da Cipriana que vê mal, mas não usa óculos, aproximou-se para tentar descortinar a figura retratada, perguntando a uma das mulheres: "É ela? É a Nossa Senhora?". Ao que a mulher respondeu: "Pode bem dizê-lo, é a nossa santinha e voltou, ela sempre disse que voltava, se quiser pode ficar com este ( estendeu-lhe o retrato da santinha ) eu arranjo outro".


Maravilhada com aquela multidão em êxtase, a Cipriana virou-se para a filha: "Estás a ver como eu não me enganei no caminho? Chegámos ao Santuário de Fátima e aquele edifício deve ser a Basílica. Ouves o que eles estão a dizer? Que ela voltou, é um milagre filha, ela voltou a aparecer". Ao aperceber-se do estado de transe em que se encontravam a mãe e a avó, a rapariga gritou: " Ó suas azémolas, isto não é Fátima e esse retrato que a avó tem na mão é daquela gaja que fugiu para o Brasil". Ao ouvi-la, uma das mulheres foi direita a ela e, com uma voz esganiçada, vociferou: "Ó sua lambisgóia de merda, você chamou gaja à nossa Drª. Fátima, à nossa Presidenta? Olhe que eu parto-lhe as trombas!". Avó, mãe e filha, na contingência de se verem trucidadas pela multidão, deram corda aos sapatos e voltaram para casa, frustradas e com as promessas por cumprir.


Contudo, não pensem que a minha amiga Cipriana desistiu da promessa, só que vai esperar pela peregrinação do vizinho e vai com ele para não correr o risco de ir novamente parar a Felgueiras onde uma senhora chamada Fátima atravessou as nuvens, não por meios sobrenaturais, mas por avião, aterrou na Portela, chegou a Felgueiras de carro, não pousou numa azinheira como qualquer Santa que se preze, saíu gloriosamente do Tribunal e, em vez de três pastorinhos para receberem a sua mensagem, tinha muitos, muitos carneirinhos. 


publicado por mmfmatos às 18:53
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4 comentários:
De Anónimo a 27 de Setembro de 2005 às 19:14
A desvantagem de actualizar o blog a uma velocidade alucinante, fez com que me tenha passado despercebido este magnifico texto. Encontrei-o porque andava por aqui a tentar descobrir se era confusão minha ou a P. Woman te tratou como mulher. É que eu tenho andado convencido que eras um “gajo” e agora estou na dúvida. A mim já me confundiram com uma mulher (só aqui no blog, penso eu de que) e estava a ver que tinha que arrear as calças para os tipos perceberem que eu não usava cueca de renda.
Agora voltando ao post, acho o texto mesmo espectacular.
Até à próxima (não te mando beijos nem abraços por causa das confusões).
José S.
(http://ruadobeco.blogs.sapo.pt)
(mailto:jgjs2@sapo.pt)


De Anónimo a 24 de Setembro de 2005 às 15:48
Interessante, eu tb falo acerca disso no meu projecto de blog. Pudera, é o assunto do dia. Está interessante o teu blog, gostei de conhecê-lo.José Agrela
(http://benficamor.blogs.sapo.pt)
(mailto:jose_agrela@hotmail.com)


De Anónimo a 24 de Setembro de 2005 às 03:19
Pois eu cá acho que toda aquela zona foi fustigada por um vírus qualquer e o pessoal de lá está todo doido. Agora, chegar-se a esta conclusão e encontrar-se um antídoto para a doença é que vai ser do caraças. (já agora, aviso já que tb estou a pensar escrever um artigo sobre a "femme fatale" porque não há palavras que cheguem para caracterizar todo este ridículo). Rôda-se na mulher que é pior que a velha...CHUAC!CASTOR
(http://diquedocastor.blogs.sapo.pt)
(mailto:diquedocastor@sapo.pt)


De Anónimo a 24 de Setembro de 2005 às 01:11
Coincidências.Acabei de comentar na padeira de Aljubarrota e também dei o nome de milagre a este grande fenomeno nacional.Só pode ser milagre,o povo português não pode estar tão cego.
Bjos kaldinhas
(http://kaldinhas.blogs.sapo.pt/)
(mailto:kaldinhas@sapo.pt)


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